Luiz Henrique Mandetta contou à GloboNews que o governo de Jair Bolsonaro cogitou decretar a inclusão na bula da cloroquina da indicação do medicamento para o tratamento de coronavírus.
“Nunca houve um direcionamento do presidente à minha pessoa. O presidente se assessorava ou se cercava de outros profissionais médicos. Eu me lembro de um dia em que vieram de São Paulo vários profissionais médicos. Ele fez a reunião da cloroquina, queria saber o que eles achavam, parece que só houve uma profissional médica que retornou. E eu me lembro de quando, no final de um dia de reunião de conselho ministerial, me pediram para entrar numa sala e estavam lá um médico anestesista e uma médica imunologista, que estavam com a redação de um provável ou futuro – ou alguma coisa do gênero – decreto presidencial. E a ideia que eles tinham era de alterar a bula do medicamento na Anvisa colocando na bula indicação para Covid”, disse Mandetta.
“O próprio presidente da Anvisa se assustou com aquele caminho, disse que não poderia concordar. Eu simplesmente disse que aquilo não era uma coisa séria e que eu não iria continuar naquilo dali; que o palco daquela discussão tem que ser no Conselho Federal de Medicina, aliás autarquia federal que tem que vir a público para orientar os médicos que estão subordinados ao Conselho de Ética e são fiscalizados pelo Conselho Federal. Então é lá que esse debate tem que se dar. Não adianta fazer um debate de uma pessoa, que seja especialista na área que for, com um presidente da República, que não é médico. A disparidade de armas é muito difícil”, disse o ex-ministro da Saúde.
“Você pode não estar com a melhor assessoria e nem esse médico deveria estar fazendo isso. Ele deve discutir entre os pares dele e sair com uma resolução do Conselho que [neste caso] nunca houve. Então nós, no Ministério, pautamos o que nós tínhamos de evidência: o uso compassivo – como o nome diz, o uso por compaixão – e [ficamos] aguardando as melhores alternativas”, contou Mandetta.
Segundo o ex-ministro, na primeira fase do trabalho brasileiro que estava sendo feito durante a sua gestão, “33% das pessoas que estavam recebendo cloroquina internadas sob monitorização – quer dizer, eles estavam lá com uma aparelhinho de eletrocardiograma contínuo – tiveram que suspender a cloroquina por arritmia grave que poderia levar à parada [cardíaca], principalmente a cloroquina associada à azitromicina, que potencializa o efeito cardiotóxico da cloroquina”.
“Então ninguém é dono da verdade, não dá para fazer desse jeito. É muito complicado, é muito difícil. Eu tenho medo de que esses médicos jovens, que estão na atenção básica, muitos deles ainda sem residência médica, muitos sem personalidade até para poder fazer esse contraponto – e a população fazendo a solicitação –, que eles acabem prescrevendo. Eu tenho medo de falarem assim: ‘então assina aqui, fala que viu, que está consentido’; e levem esse medicamento. E [tenho medo de] as pessoas acabarem fazendo automedicação e tendo problemas. Eu espero que isso não ocorra, espero que a população seja bem esclarecida, porque isso é uma droga que tem efeitos colaterais e que precisa ser monitorada. Precisa ter cuidado para que isso não seja mais um agravante na já tão dura realidade que é a infecção por esse vírus, que é muito mais do que uma infecção respiratória: ela tem atividade cardíaca, atividade hepática, atividade renal, esse vírus é sistêmico, é um quadro, ele está se desenhando. A fisiopatologia, que é o estudo da doença, agora é que está dando luz para os médicos”, frisou Mandetta.
Para o ex-ministro, colocar a cloroquina como panaceia é “um desvio” para acelerar a reabertura da economia.
“Então é muito complicado a gente colocar como uma panaceia: ‘olha, toma isso daqui que você fica bem.’ Me parece muito mais uma medida para que as pessoas tenham essa sensação de que há uma solução e voltem a trabalhar, porque qualquer tipo de solução é pautado pela ciência, pela saúde. Parece que é só mais um desvio para se falar: ‘Bom, tendo isso daqui, vocês podem ir trabalhar e fiquem tranquilos.’ Para o jovem, não vejo problema; agora, para as pessoas que já tenham algum problema cardíaco, que já tenham algum tipo de lesão, pode ser, sim, um grande problema.”
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